“Nenhum oito (lemininscata)
será infinito enquanto a mente for limitada.
Dança e Tarot: caminhos para seu infinito pessoal”
Na mandala aberta, as lâminas na mesa exibiam suas linhas posturais, seus giros e gestos. O desenho de cada lâmina me parecia o fragmento de uma coreografia. Um instante, um momento único e pleno de intenção, expressão e movimento. Movimento. Essa é a palavra.
Em cada arcano, tudo se movimenta. Até mesmo na Sacerdotisa, os véus fluem feito água. O Eremita emana luz de suas mãos trêmulas. Na minha dança, esse paralelo começou de modo natural e irrefletido.
Ao estudar determinado passo, conectava a uma determinada postura ou imagem arcana, primeiramente no sentido corpóreo mesmo. “Diagonal como os Enamorados”, “Peito aberto como o condutor do Carro”, “Eixo definido como a figura do Mundo”, “Elegantemente ajoelhada como a Estrela”. Referências para inspiração e reconhecimento de semelhanças. Não necessariamente nessa ordem.
Essa elaboração foi se refinando, e com o tempo, além do paralelo corporal, o tarot me trouxe o subjetivo: “Preciso colocar a energia de uma Rainha de Paus nesse movimento”, “Um ar de felicidade tipo Dez de Copas!”, “Girar como a Roda da Fortuna.”
Ao pensar a dança através do tarot, minhas preferências e estilo foram se lapidando de uma forma, que quando percebi, minha dança contava uma história. Primeiro para mim. E era tão real, que de alguma forma o público também captava, dentro do universo e percepção próprios. E o processo de criação se tornou absolutamente consciente.
Chamo esse trabalho de Coreografias Arcanas. Não se trata de dançar o arcano em si, mas dialogar com ele e absorver a sua essência, sem abrir mão da própria. Se eu te conto uma história e todos os meus segredos, ainda assim você continua sendo você. Se ao conversar comigo, você sair se comportando como se fosse eu, então se trata apenas de uma imitação caricata.
Da mesma forma que um arcano traz um caminho para meditação, aconselhamento, autoconhecimento, orientação e previsão, ele pode indicar uma inspiração artística, ele em si é Arte pura.
Uma Arte que não se prende à uma determinada forma de expressão ou estilo musical, porque em si abrigam todas as vivências, emoções, sentimentos que um ser humano pode ter, internamente e externamente interagindo com a vida e com as pessoas.
Tive a oportunidade de compartilhar essa proposta, no Show “Arcanos” que organizei e produzi dentro do Festival VIDA (Ventre Integração Dança e Arte) Dia Mundial do Tarot, no dia 25 de maio de 2013 , no Teatro de Criação , em São Paulo. Apesar de não ter coreografado pessoalmente todas as performances, havia em cada uma das apresentações uma referência e direcionamento partindo desse conhecimento descrito.
Como quem está diante de um novo tarot, comecei a olhar para esses artistas como se fossem as lâminas que eu devia nomear. E, ao identificar estilo, personalidade, vibração e imagem pessoal, os arcanos iam se revelando. Falar do arcano, do que ele significa, compartilhar imagens e simbologias foi fundamental.
Um segundo passo, a troca de ideias, que sempre vinha acompanhada pela seleção da música e figurino apropriado. Com alguns, acompanhei pessoalmente, sugeri pontos de partida e desenvolvimento, mas sem interferir na concretização em si. Foi o caso de As Marias e Rafael Nur, que performaram Os Enamorados, e de Larissa Freitas, que representou A Força.
Houve quem pediu para dançar uma música especifíca; nesse caso, dançava uma ideia, um sentido maior que a sequência de passos. Foi o caso da Cia Luz do Ventre que homenageou o feminino numa coreografia total Rainha de Copas; e de Sahira Fatin que dançava tão plena quanto o arcano XXI, O Mundo.
Enquanto assistia as performances, que superaram mil vezes minha idealização, mais ainda fez sentido à frase de Alejandro Jodorowsky que foi citada na abertura do show:
“Trabalhando com o tarot, você vê que existe o acaso, isso que chamamos de sincronicidade e que tudo está unido. E que não há coincidências ou probabilidades. Quando você coloca o espírito em algo o fenômeno acontece. Quando você se propõe a algo, quando você entra profundamente numa dimensão, eu chamo a dança da realidade: o mundo começa a dançar ao seu redor e te dá aquilo que você estava procurando”.
Se as performances superaram minha expectativa, a reação, ou melhor, a Identificação do público com o show foi total. Assim como tarot disposto em mandala na mesa funciona como um espelho, cada arcano ali dançado refletiu a essência de cada pessoa, numa emocionante catarse que só a Arte pode ocasionar. Todos ali presentes, levaram o tarot em suas almas.
No dia 25 de maio de 2013, em comemoração ao Dia Mundial do Tarot , o oráculo esteve literalmente sob os holofotes, no palco do VIDA. Uma iniciativa que comprova que as pessoas estão sedentas de arte (e não apenas entretenimento), que estão abertas para o que o tarot tem a dizer de grandioso, e que esse diálogo muito tem a acrescentar a todos nós.