Usando uma licença poética tarológica, o nosso Brasil me parece estar tão embaralhado, que ontem, já deitada para dormir, fiquei insone pensando qual carta do Tarot seria mais adequada para fazer ressonância musical com a música Brasis, composição de Seu Jorge, Gabriel Moura e Jovi Joviniano, lançada em 2007 e que, por algum motivo não explicável, passei o dia inteiro ouvindo.
A análise da canção Brasis traz ao ouvinte atento a reflexão sobre a diversidade etnocultural do País e como essa diversidade se encontra representada nas desigualdades sociais que se estendem pelo território brasileiro: ontem (2006/2007) e hoje (2020/2022). É a mais pura verdade: tem um Brasil que é próspero, outro não muda.

Como não consegui escolher apenas um Arcano para simbolizar as dicotomias da letra da música, fui pegando as Cartas que me pareceram ter a ver com elas, e creio que são bastante óbvias serem quase todas do Naipe de Ouros, puxadas pelo Imperador, que além de outras qualidades, é a representação e a autoridade máxima do mundo estruturado – nem sempre belo, generoso e justo.
Propositadamente, escolhi um Imperador carrancudo e, aparentemente, pouco disposto a compartilhar suas conquistas e riquezas com os demais mortais. A seguir, identifiquei eufemisticamente, uma possível Imperatriz, numa carta de Seis de Ouros, com uma expressão de tédio e arrogância, distribuindo displicentemente moedas para os necessitados, como se fossem migalhas que não lhe farão a menor falta.
Já o Cinco de Ouros, mostra um casal literalmente machucado física e emocionalmente; o homem com a mão ferida tenta consolar sua mulher que está em pleno desespero psicológico. E finalmente, podemos ver no Quatro de Ouros, fechando a sequência das quatro cartas, um homem trajando terno, gravata e sapatos sociais, segurando com bastante firmeza e possessividade as moedas que ele conseguiu amealhar durante sua vida, reforçando assim a postura gananciosa e egocêntrica do Imperador.
“Estamos soltos num presente, desajustados do tempo, com a sensação de um atraso inconciliável, todos os dias, todos os dias, enquanto o mundo vai sendo demolido à nossa volta (…) se não temos, então, nem futuro nem passado, estamos sem lugar. Ou num presente que tem cara de futuro, mas distópico, vindo de um passado que não cuidou de si”.
“Ou talvez seja a sensação do tempo, este nosso tempo, entre o futuro e o passado, mas órfão de ambos – e também do alento, agora impossível, da ficção que o retrata. Mas talvez caiba a ela, à própria ficção, e também ao sonho, a capacidade de inventar um outro tempo para nós”.
Natália Timerman, in A Pior Pessoa do Mundo
Letra da música Brasis:
“Tem um Brasil que é próspero
outro não muda
Um Brasil que investe
outro que suga
um de sunga
outro de gravata
tem um que faz amor
e tem o outro que mata
Brasil do ouro, Brasil da prata
Brasil do Balacouchê, da mulata
Tem o Brasil que é lindo
outro que fede
o Brasil que dá
é igualzinho ao que pede
Pede paz, saúde, trabalho e dinheiro
Pede pelas crianças do país inteiro
Tem um Brasil que soca
outro que apanha
um Brasil que saca
outro que chuta
Perde e ganha, sobe e desce
Vai à luta, bate bola
porém não vai a escola
Brasil de cobre, Brasil de lata
É negro, é branco, é nissei
é verde, é índio peladão
é mameluco, é cafuso, é confusão
Oh Pindorama quero seu Porto Seguro
Suas palmeiras, suas peras, seu café
suas riquezas, praias, cachoeiras
quero ver o seu povo de cabeça em pé.”

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