A Sonata Escrita pelo Príncipe das Trevas

Publicado por Vera Vilanova

No Tarot a fama da Carta do Diabo não é das melhores e nem das mais recomendáveis. Normalmente ela está associada a maldade, império dos sentidos, controle, paixões desmedidas, excessos, dependência, opressão, chantagem, abuso de poder, materialismo, tentações perigosas. Apenas em situações raríssimas ela é vista, num nível mais profundo, sugerindo lucidez (Lúcifer), pois representa a escuridão de onde nasce a luz – iluminando nosso lado sombrio, favorecendo o autoconhecimento.

“O violino é um instrumento musical, classificado como instrumento de cordas ou cordofone. Foi inventado por Gasparo de Salô, um italiano que viveu entre os anos 1540 e 1609. O termo “violino” foi introduzido na língua portuguesa no século XX. Até então, a designação do instrumento era rabeca, palavra que ainda se utiliza em muitos lugares”.

Paganini e seu violino

“O violino, pelas suas origens populares, foi ganhando ao longo dos tempos anteriores à música contemporânea uma certa misticidade com alguma relação diabólica. Giuseppe Tartini ainda conseguiu aumentar mais essa fama e o violinista e compositor Niccolò Paganini quase fez crer as pessoas que tinha feito um pacto com o diabo devido à sua extrema virtuose que deixava plateias de boca aberta”. – Alberto Augusto, Cultura D´Oiro

Giuseppe Tartini, um dos maiores compositores concertistas e teóricos musicais de todos os tempos apresentou ao mundo uma sonata que teria sido composta e executada pelo Príncipe das Trevas. Ela foi considerada uma música tão difícil de tocar ao violino, que muitos chegaram a cogitar que o Tartini tivesse seis dedos na mão esquerda.

Giuseppe Tartini nasceu em 1692, na cidade de Pirano (Caninde na península de Ístria, na República de Veneza. atual Eslovênia). Filho de Gianantonio – nativo de Florença – e de Caterina Zangrando, descendente de uma das famílias aristocráticas mais antigas da Piranese. Formou uma famosa escola de violino – a Escola das Nações – de onde saíram eminentes violinistas. Tartini, compositor italiano do barroco, aumentou as teorias supersticiosas quando contou uma história deveras interessante com as suas exatas palavras:

O Sonho de Tartini, tela de Louis-Léopold Boilly (1824)

“Numa noite, no ano de 1713, sonhei que tinha feito um pacto com o diabo pela minha alma. Tudo aconteceu como eu tinha desejado: o meu novo servo antecipou todos os meus desejos. Entre outras coisas, eu dei-lhe o meu violino para ver se ele conseguia tocar. Como me espantei ao ouvir uma sonata tão maravilhosa e bonita, tocada com tanta arte e inteligência, como eu nunca tinha imaginado nas minhas mais ousadas navegações pela fantasia. Senti-me arrebatado, encantado, numa outra dimensão: até a minha respiração me faltou, e acordei. Peguei logo no violino para poder reter, em parte pelo menos, a impressão do meu sonho. Mas foi em vão… A música que eu tinha acabado de compor era sem dúvida a melhor que eu já tinha alguma vez escrito, e ainda a chamei de Trilo do Diabo, porém a diferença entre o que escrevi e o que me comoveu no sonho era tão grande que eu estive quase a ter coragem de destruir o meu instrumento e quase que desisti para sempre da música se fosse possível viver sem a alegria que isso me dá.” – Giuseppe Tartini, sobre Fascínios opus 4, Trilo do Diabo

A Sonata O Trilo do Diabo é a composição mais conhecida do compositor Tartini, notável por suas passagens tecnicamente difíceis. Composta para violino solo e baixo contínuo, esta sonata em Sol maior, cujo título provém do notável encadeamento de trilos no terceiro movimento, apresenta-se em quatro andamentos.

Aqui temos acesso, pelo Youtube, à interpretação do terceiro movimento pelo violinista israelita Itzhak Perlman, que toca sempre sentado devido a uma doença que contraiu aos quatro anos.

Vale ressaltar que até hoje a obra permanece como “peça de resistência” no repertório dos virtuoses e que Diabo não é tão feio como se pinta.

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